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Como é essa vida...
Você já ficou em “sinuca de bico”? É como estou me sentindo agora. Sentei para escrever e – de repente – o teclado ficou pequeno demais. Acabo de cair numa dessas arapucas que a vida prepara pra gente. Quando montamos esta seção de entrevistas, o que a gente esperava eram horas e horas de prazer diante do teclado – costurando as palavras que orbitam o mundo dos tambores e se deliciando com as construções, dicas, enfim, todo o conhecimento e experiência de cada ícone por nós entrevistado. Entretanto, estou vivendo momentos de tensão. Ficou em xeque a minha postura, a minha ética, como entrevistador - e sucumbi. Por isso confesso: não serei imparcial. Não conseguirei ser isento nesta entrevista. Pelo menos sou honesto com vocês e graças a Deus existe este preâmbulo na formatação desta coluna – onde posso alerta-los. Sou amigo do Tatá – amigo mesmo – desses em que as famílias se entrelaçam ao ponto dos nossos filhos serem amigos dos filhos dele. Como se não bastasse, sou fã nº1 desse cara. Aliás, o Tatá é “O Cara”.
Uma das melhores e mais fortes pegadas que já ouvi nesse planeta. Roqueiro de raiz – precursor do Sangue da Cidade – uma das melhores bandas de rock que o nosso Brasil brasileiro já escutou, Tatá ocupa o banco de bateria da banda mais antiga que se tem notícia no nosso país – o The Fevers. Pois é – isso, por si só, já dispensa comentários. Se hoje existe um segmento musical chamado “rock brasileiro” e se existe esse mercadão para que todos possam sobreviver – foram os Fevers que criaram. A banda vem da Jovem-Guarda – só isso. Em que pesem as críticas, foi a jovem-guarda que abriu o caminho para a evolução do rock brasileiro. Enfim, não estou aqui para discutir o papel e a importância da jovem-guarda no cenário da música brasileira – vocês conhecem – nosso objetivo é revelar a jornada profissional de um dos maiores bateristas que o nosso Brasil já vislumbrou. O The Fevers tá mais vivo do que nunca – a galera do Nordeste ou do interior que o diga. Não estar na mídia é opção – é estratégia. Não precisam disso para explodir os palcos em seus shows e bailes com turnês atrás de turnês.
Ficam aqui registrados os nossos agradecimentos ao Dr. Geraldo e a D. Vany, por terem colocado nesse mundo e criado esse ser humano de luz, um sujeito de caráter, bom por natureza. Também não poderíamos deixar de reconhecer o papel de seu anjo da guarda – Sônia – parceira fiel e alicerce fundamental em sua escalada profissional, desde o primeiro degrau. Tatá é humilde, ético, amigo para todas as horas, e um batera virtuoso – então, chega de baboseira: com vocês - Otávio Monteiro.
Site Batera: O The Fevers é a banda de rock mais antiga do Brasil, ou seja, tem mais de 40 anos - se não me engano, 44 anos de formação – e você tem 46 anos de praia. Como foi isso? O empresário da banda sequestrou você na maternidade e te deu uma Fischer Baby pra começar a tocar? Ou você pegou o bonde andando? Enfim, como você entrou na banda? Apenas a título de curiosidade, quem da banda, hoje, era integrante da formação original do The Fevers?
Tatá: Ahahahahahah (risos - muitos risos - o Tatá é uma comédia). Tá certo que eu toco desde cedo, mas nem tanto assim, né? Mas pode-se dizer que os dois fatos foram os mais marcantes na minha vida. “Sair da maternidade” me marcou – nasci – consegui chegar no “mundo dos vivos” (risos...) e entrar nos Fevers foi um renascimento profissional – pois foi onde me estabilizei – onde descansei minha âncora e venho navegando nessas músicas há dezesseis anos. Então, a banda realmente é a mais antiga da área – o que para mim é um orgulho – mas eu ingressei no conjunto há dezesseis anos atrás. Por outro lado – também não peguei o bonde andando – ele parou no ponto e eu entrei. Eheheheheh. Digo isso porque para entrar na banda tive que fazer um teste. Foi tudo muito rápido. O Darcy, que ocupou o banco da batera da banda por pouco tempo, foi quem me convidou. Ele não podia tocar numa turnê de 20 dias e outros compromissos profissionais estavam se tornando incompatíveis com a agenda dos Fevers – ele se viu forçado a sair e me chamou para um teste – inicialmente para a turnê de 20 dias - fiz e passei. Toquei na turnê e depois percebi que estava incorporado à “thurma”. Foi assim que eu entrei na banda, há dezesseis verões atrás. Enfim, matando a sua curiosidade – hoje, temos na banda dois integrantes que vem nesse bonde desde a sua formação original, há 44 anos: o Liebert, nosso baixista, e o Luiz Cláudio, o nosso cantor.
Site Batera: Quais as bandas que você tocou antes dos Fevers? Que trabalhos você desenvolveu até ingressar nos Fevers? Já nos Fevers, você tocou com os Golden Boys, Wanderleia, Erasmo Carlos e cia. No DVD de 40 anos da Jovem Guarda, você grava sério, sisudo, concentrado - totalmente diferente do que se vê do Tatá nos palcos e na vida privada – um cara descontraído – um showman de tão engraçado. Como foi gravar esse DVD – um DVD que representa toda uma época da música brasileira – um marco na história da nossa música? Por que tanta seriedade?
Tatá: Olha cara, você combinou comigo que não iria fazer pergunta difícil. Pó, perguntar as bandas que eu toquei é brincadeira – porque tiveram épocas em que eu tocava em três bandas ao mesmo tempo. Quando eu comecei a minha carreira de freelancer toquei com inúmeros cantores e dezenas de grupos, não me atrevo a discorrer sobre as bandas e os trabalhos que realizei porque sei que vou pecar pelo esquecimento. Vamos colocar assim: minha primeira banda se chamou “Objeto” – mas foi uma banda de garagem – e que nunca saiu de lá. Depois eu fui baterista do Renato Massa.
Site Batera: Que !!?!! Como assim !!??!! Explica isso pra gente - você foi baterista do Renato Massa? Mas o Renato Massa é baterista – ah, já sei – vocês fizeram um duo de bateras – foi isso?
Tatá: Não - eu fui baterista do Renato Massa mesmo. É que ele foi guitarrista antes de se tornar baterista. Aliás, o nome artístico dele é “Renato Massa”, justamente porque ele tocava no “Massa Falida”. A banda era dele. Eu fui baterista do Massa Falida e o Renato era o guitarrista da banda. Aí, quando a banda acabou, ele levou o apelido “Renato do Massa” – que hoje é “Renato Massa”. Essa banda era de Copacabana. Bem, já que estamos falando de bandas, fazendo uma rápida retrospectiva na minha vida posso dizer que toquei no Sangue da Cidade, no Attack, Os Senhores, Vapor, Túnel do Tempo, Atlântico Blues, Cerebelo, Companhia Mágica, Rockstory – essa com o Alex Cohen. Toquei com Zé da Gaita, Serguei, Sérgio Dias (Mutantes), Vera Negri e Comando Negri, Ed Wilson, Leno e Lílian – até com Nelson Gonçalves eu toquei. Toquei com os Golden Boys, Wanderleia e Erasmo Carlos. Por falar nisso, você me perguntou por que eu estava sério na gravação do DVD dos 40 anos da Jovem-Guarda – ora, só de ser chamado pra gravar já é o suficiente para amarelar qualquer mortal. Afinal, um DVD desse naipe terá seu lugar reservado nos anais da música brasileira. Como se não bastasse, o Marcelo Sussekind – produtor do DVD e um dos maiores produtores do Brasil, chega pra mim e diz: “- Só tem uma pessoa que não pode errar: é você”. Gente, quem não ficaria sério? A responsabilidade de tocar o acervo clássico do Erasmo, da Wanderleia e dos Golden Boys no mesmo trabalho – no mesmo palco – meu amigo – qualquer profissional estaria sério – ou seria um louco desvairado.
Site Batera: E hoje, você está tocando exclusivamente com os Fevers ou participa de algum outro trabalho?
Tatá: Muito bem colocada a sua pergunta “Fernandinho” (risos) – você me deu a oportunidade de falar do Arquivo Pop. Quando perguntam se eu tenho amante eu digo que sim – o Arquivo. Profissionalmente sou casado com os Fevers, mas o Arquivo é a minha amante (risos). A banda começou de brincadeira e tá fazendo quase uma década de existência – e com público certo. Tocamos todas as primeiras quintas do mês no Far Up, na Cobal do Humaitá (RJ). Eu sei que essa entrevista do Site Batera é voltada para um público que abrange todo o Brasil, mas quem for do Rio ou tiver por aqui nas primeiras quintas do mês, pode ir conferir – recomendo. O nome da banda já diz tudo: Arquivo Pop. Somos uma banda de cover e nos propomos a tocar os sucessos nacionais e internacionais das últimas décadas. É uma brincadeira que deu certo mesmo. Por outro lado, eu tenho um amigo que é um batera de peso – o Maurício – e quando tem show dos Fevers no mesmo dia que o Arquivo, ele assume as baquetas no Arquivo.
Site Batera: Tenho notícias que as primeiras batucadas eram realizadas nas panelas da D. Vany. Depois disso o Dr. Geraldo reservou um quartinho fora de casa, na cara da piscina da casa de Teresópolis, onde soaram os primeiros tambores. Aliás, diga-se de passagem, o rock’n roll que rolava no quartinho tinha como platéia uma seleta e ilustre vizinhança – os condôminos e visitantes da Granja Comary. Ficavam ali hospedados, na casa em frente à do Dr. Geraldo, artistas como o pagodeiro nº 1 da época – Roberto Ribeiro, os Golden Boys – no auge da carreira, além de Gal Costa, Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes. Fale pra gente como foi o seu começo de carreira. Você esbanja musicalidade – e isso vem de pequeno. Sua raiz está entranhada nos porões do rock. Quais são suas influências? Que bateras inspiraram sua personalidade musical?
Tatá: É isso mesmo, esses ilustres visitantes que ficavam hospedados na casa do meu vizinho de Teresópolis era a turma da Odeon – a nata do MPB. Eles foram as primeiras vítimas dos meus tambores. Depois de muitas reclamações de vizinhos, o meu pai reservou um quartinho pra minha batera – onde eu passava o dia inteiro tocando – enquanto minha família curtia uma piscina. Os vizinhos da frente nunca reclamaram – eles – a turma da Odeon – talvez porque conseguissem enxergar ali uma semente que poderia germinar. Mas o fato é que depois que comecei a tocar no quartinho as reclamações acabaram. Musicalidade nasce com você – mas você também desenvolve. Musicalidade em baterista é fazer um som bonito em panela, garrafa, prato, copo, mesa e tudo o que você encontrar pela frente pra poder batucar na hora que rolar um som. É encaixar o som de forma harmônica na música e transformar uma garrafa, por exemplo, num cowbell. A maioria dos bateras não conseguem ficar parados e eu não sou exceção. Depois que a gente começa a tocar nos tambores mesmo a gente canaliza tudo pra batera. Tem batera que nasce com o dom – outros não. Nascido com o dom da música ou não – não faz diferença alguma, porque existe uma coisa chamada “talento”. O talento você desenvolve. A musicalidade é a conseqüência disso tudo – do dom e do talento – é ali que ela navega. Então, musicalidade também se desenvolve. Minha primeira bateria foi uma Pingüim – foi quando tudo realmente começou. É claro que ao sentar no banco de uma bateria você tem como referência o som daqueles seus ídolos – aquelas músicas que te inspiram – aquele estilo onde você se encontra, se identifica – e a minha praia é o rock – sou roqueiro mesmo – por isso a minha pegada forte. Vou fazer aqui uma ressalva: a minha primeira bateria, na verdade, não foi a Pingüim – antes dela eu tive uma mini-bateria que eu peguei no lixo da casa do Sérgio Serra (guitarrista do Ultraje a Rigor). Sou amigo do Sérgio de infância. A mãe dele jogou fora uma mini-batera toda velha – realmente uma sucatinha. Cara, aquela bateria que eu achei no lixo determinou todo o resto da minha vida. Reformei a bateria inteirinha. Troquei os aros e as peles e comecei a tocar com o Sérgio – tocamos muito rock’n roll juntos. Outro dia, por falar nisso, encontrei com o Sérgio Serra num dos aeroportos da vida e relembramos aqueles tempos – nossos olhos encheram de lágrimas... Enfim, você me perguntou sobre as influências musicais – ora, sou um discípulo do Ian Paice (Deep Purple) – essa é a minha referência internacional. É claro que, como qualquer mortal nesse planeta e com mais de 40, sou influenciado pelo mestre dos mestres – John Bonhan. Porém, minhas influências mais diretas são daqui mesmo: Rui Motta – o batera. Sou fã do Rui, desde criancinha (risos). Sergio Della Mônica – outro grande inspirador - tocou com a Rita Lee no auge das paradas de sucesso. Ainda na praia da Rita Lee, tendo com ela gravado o disco “Fruto Proibido” – o grande batera – Franklin Paolillo. Por fim, tão importante quanto os três primeiros – Jorginho Gomes – o irmão do Pepeu Gomes.
Site Batera: E seus projetos pessoais futuros – quais são eles? Por diversas ocasiões presenciei suas manifestações no sentido de abrir uma oficina de bateria e percussão – e sempre te dei muita força pra isso. Os bateristas cariocas agradecem. Então - essa oficina vai sair do plano das idéias ou não? Desde já colocamos o Site Batera à disposição do curso, seja para divulgação dos horários e das aulas regulares, seja para a propaganda dos eventos que porventura ocorram com os grupos lá formados. Seremos um verdadeiro veículo entre o aluno e o curso – essa é uma das funções sociais que o Site Batera desempenha no meio musical - e seus ideais se coadunam com os nossos – a democratização da bateria – para que o nosso rebanho de discípulos dos tambores se multiplique nesse Brasil à fora.
Tatá: Ah – muito obrigado meu amigo, eu sempre soube que podia contar com você e com o Site Batera. Aliás, eu não tive a oportunidade de agradecer à equipe do Site Batera por esse precioso espaço. O papel que o Site Batera vem desempenhando no cenário musical nesse país é enorme. No âmbito acadêmico, democratizando o acesso daqueles que se enveredam para o mundo dos tambores, divulgando métodos e técnicas – desenvolvendo e unificando conceitos - no âmbito da indústria divulgando os produtos, instrumentos e acessórios à disposição do baterista. Enfim, até a classe dos bateras ficou mais unida. Ter uma entrevista estampada no Site Batera é motivo de muito orgulho – muito obrigado a vocês do Site. Aproveitando o ensejo e, já que estamos na hora dos agradecimentos (risos), não poderia deixar de registrar (agora ele ficou sério – o tom até mudou) o meu reconhecimento, agradecimento, satisfação e a minha enorme realização em participar de uma banda como os Fevers. Os Fevers é, acima de tudo, uma escola. Aprendi muito – muito mesmo. É muita estrada – são horas de vôo nos palcos só tocando sucesso. Os Fevers é um acervo de sucessos. Atravessamos as fronteiras – quando eu digo que é uma escola é por isso tudo – ano passado tocamos em Toronto e Nova York. Esse ano vai ter Toronto novamente, confirmado em julho – e vamos ter Portugal. Em Portugal ganhamos um disco de ouro em 98 – olha que delírio! Sou grato a todos vocês da minha banda: Liebert, Luiz Cláudio, Miguel Ângelo e Rama - inclusive a Marinho Produções, na pessoa do José Carlos Marinho – nosso produtor. Bem, quanto à oficina, pode ser que saia do plano das idéias sim (risos). Quero muito montar um curso legal pela Barra da Tijuca, tenho até espaço na minha casa pra isso – mas precisaria de uma obra e depois – um curso leva tempo e exige dedicação. Se for pra fazer tem que ser bem feito. Enfim, estou estudando o assunto, claro, e seria um sonho poder montar um grupo de percussão criado dentro da escola - fazer apresentações periódicas – tudo isso vai se concretizar. Preciso encontrar a fórmula para conciliar a agenda da banda com esse projeto – e sei que não é muito difícil de encontrar essa fórmula.
Site Batera: Descreva o seu set pra gente. Aquela bateria que eu conheci em Teresópolis é um monumento ao rock. Trata-se de uma Pearl Maple Shell – cujos tambores são gigantescos. Além disso, são tantos toms e surdos que eu me perdi na conta. Fora a Pearl, você tem uma Roger das antigas, né?
Tatá: É isso aí, aquela Pearl realmente é gigante – eu fico pequenininho quando sento no banco daquela máquina. Trata-se de uma Pearl All Maple Shell – ou seja – 100% maple. Os tambores são verdadeiros canhões – a começar pelo bumbo, que é de 24”, os toms são super profundos – são power-toms, de 12”, 13”, 14” e 15” – além de dois surdões de 16” e 18”. A caixa, seguindo a linha da batera, é de 14” x 8”. A Roger é das antigas, mas ta novinha – e também canta muito alto. Essa batera já consegue se enquadrar muito bem num jazz – é mais poliglota que a Pearl. São dois toms, de 12” e de 13” - mais rasos. Surdo de 16”. bumbo 22”. A caixa era metálica – 14” x 5,5” – mas deixei no carro, em Copacabana – e me furtaram – perdi minha caixa. Essas batera são de casa – não toco com elas nos Fevers – não estão na estrada do dia-a-dia. Aliás, por falar nisso, é possível que venham novidades pela frente. Nunca fui de ficar em cima de ninguém – acho que isso não funciona. Ser endorsee é uma coisa que tem que acontecer naturalmente. Se você gosta daquela marca para aquela peça, instrumento ou acessório – e se aquela indústria reconhece o seu trabalho e vê em você uma certa identidade com aquele produto que ela fabrica - ela pode te chamar para representa-la. É assim que acontece – ou pelo menos – é assim que deveria acontecer. A Orion me dá uma força. Venho tocando com o set de pratos da Orion nos shows dos Fevers já faz um bom tempo. Os pratos fazem o seu papel e não ficam a desejar – mesmo. Não é a toa que eu levo essa bandeira comigo – recomendo. Já ta na hora de trocar o set – vou até fazer um contato com Orion nesse sentido. Pra você ver, são anos que esse set de pratos está na estrada e só agora estou sentindo a necessidade de trocar. Mas quando eu falei em novidades eu não estava me referindo aos pratos – e sim à batera. Venho conversando com uma grande marca e seria o máximo poder tocar nos shows dos Fevers com uma batera dessas. Infelizmente não estou autorizado a declinar a marca da batera – eu não contava que iríamos abordar esse assunto aqui. Se soubesse teria conversado com eles – mas vocês não perdem por esperar, pois essa batera vai cantar alto pacas – até os Fevers vão ter que investir mais no retorno do palco porque a batera vai engolir o som dos alto-falantes (risos).
Site Batera: A maioria da nossa galera é composta por bateristas em início de carreira. Que conselhos você daria àquele aspirante a baterista profissional? Dá pra viver de bateria no Brasil? O baterista tem que saber tocar tudo ou pode se especializar numa determinada área? O autodidata encontra espaço no mercado ou é necessário primar pela técnica e estar sempre estudando? Aquele que tem oportunidade de estudar em outro país – você recomenda?
Tatá: Olha, não existe uma fórmula do sucesso. Vida de músico é vida de artista – que nesse país, em regra, é uma vida ingrata. Até podemos dizer que o nosso mercado melhorou de uns tempos pra cá, que a sociedade também vem reconhecendo mais o artista brasileiro, mas ainda não temos “um futuro promissor”, como aquelas carreiras tradicionais. Então, parceiro, pra ser músico tem que ter disposição – no palco e fora dele. Tem que estar sujeito aos altos e baixos – saber guardar para as horas da seca – saber investir pra colher lá na frente. É um mercado competitivo. Você deve primar pelo conhecimento técnico e estar na frente dos outros. O autodidata encontra espaço sim – claro – é um artista – mas fica mais fácil se você estuda. Você tem que aproveitar as oportunidades – estar no lugar certo na hora certa – e quanto mais você sabe, quanto mais eclético e versátil você for, maiores serão as oportunidades que você estará apto a aproveitar – aumenta o leque, entende? A determinação do cidadão é tudo. Determinação e responsabilidade fazem a dobradinha perfeita para você subir os degraus da vida profissional. Essa questão de estudar fora é complexa e vai depender do caso concreto. Digo isso porque se você tem mais de 40 e já ta no meio da estrada, abandonar seus trabalhos, seus contatos e tudo mais pra mergulhar na teoria absoluta em outro país, é querer descer alguns degraus para subir tudo de novo – aí tem que ver se vale a pena. Se você é um baterista novo, realmente no início da carreira – então vale muito a pena você estudar fora – até mesmo pelos contatos que você vai fazer – aumentam os horizontes em todos os sentidos. Pois é, por isso que eu disse que é um assunto complexo – vai depender de cada caso.
Site Batera: Além de excelente baterista, cuja pegada impressiona aos mais refinados ouvidos musicais, você é um pai de família invejável – sempre presente na criação dos filhos e dedicado à esposa – um exemplo de pai. Você é a prova viva de que não existe incompatibilidade entre a vida de músico e a vida familiar – ou estou enganado? Ninguém é mais autorizado que você para fazer um relato sobre essa conjugação: vida de músico/vida familiar.
Tatá: A resposta dessa pergunta se conjuga com a resposta anterior. Vida de músico é vida de artista – é – e artista vive na estrada. Você tem que estar disposto a viajar, trabalhar, trabalhar, trabalhar – mas quando volta pra casa vem a recompensa. São dias de intenso convívio familiar e eu posso dizer – sou um pai dedicado mesmo. Meus filhos me realizam. São meus tesouros. Mas falta aí um dos tesouros da minha vida - a outra parte da laranja – a minha esposa, minha amante, minha companheira fiel – minha base – minha cúmplice – a Sônia, que vem comigo nessa vida há quase trinta anos – desde quando tudo começou, e divide comigo essa responsabilidade. Uma filha já está praticamente criada – a Gabi. Os outros dois – A Naty e o Duda - ainda vão me dar algum trabalho – mas se dependesse de mim, não sairiam dessa idade jamais. Minha vida está voltada para a minha família – todo o meu suor é para eles – minhas fontes de inspiração e razão de tudo. Dá pra ser um bom músico e um dedicado pai de família sim – mas a nossa vida, em regra, realmente é mais sacrificada.
Site Batera: Enfim, Tatá, fica aqui sublinhado, em nome de toda a equipe do Site Batera e de toda a Galera do Fórum, os nossos agradecimentos ao precioso tempo dedicado à nossa entrevista. Muito obrigado mesmo, meu amigo e parceiro nas baquetas – que cansou de dividir, comigo, o banco da bateria na sala da minha casa, nos sons das tardes e noites de fins de semana. Aliás, meus vizinhos também agradecem – porque, afinal, não é qualquer vizinho de baterista que pode se dar ao luxo de desfrutar uma bateria tocada pelo baterista do The Fevers. Meus vizinhos até me tratam com mais respeito...eheheheheh...
Tatá: Tá bom (risos – muitos risos), até parece. Eu que só posso pedir desculpas aos seus vizinhos por obriga-los a escutar os nossos tambores melancólicos nas músicas mais românticas – ou nossos tambores estridentes naqueles sons mais pesados. Mas a culpa não é minha – é sua. Você me convida pra sua casa – me serve um chope Brahma, e deixa a sua batera montadinha na sala bem na minha frente – brilhando – me chamando pra tocar – você quer o que? Não sou de ferro. Caio na tentação. Ter você como amigo é isso – uma benção de Deus. A gente demora uma vida inteira para capinar as verdadeiras amizades, e acaba a vida com meia-dúzia de amigos – você é um deles. Espero que essa nossa amizade dure pelo resto de nossas vidas. Valeu a todos da equipe do Site Batera, mais uma vez, por essa oportunidade. Aqui não teve tempo perdido – e sim – tempo investido. É uma honra pra mim estar aqui com você no Site Batera. Aliás, outro dia, acho que foi em dezembro, saiu uma notinha na Revista Backstage, falando do “Tatá, batera dos Fevers”. A nota fazia referência ao Festa da Música que rola todo ano lá em Canelas (RS), que eu participei. Ora, aquela nota é de autoria do Gustavo Victorino – colunista da revista – saiu na coluna dele. Ele estava lá. Esse cara tem um papel extremamente importante no nosso cenário musical. É um crítico exigente – mas um crítico construtivo – sou e sempre fui fã do trabalho dele. Ter o meu nome estampado na coluna dele, pra mim, foi motivo de muito orgulho – BRIGADÃO GUSTAVO! (coloquei em caixa alta porque o Tatá falou mais alto – eheheheh). BRIGADÃO Site Batera E UM ABRAÇO FORTE A TODA A GALERA DO FÓRUM! Vou aproveitar e deixar um recado – uma dica pra galera: essa Festa da Música que rola todo ano em Canelas é um tremendo evento – todo músico deveria participar e conhecer pra entender o que eu estou dizendo. Já toquei com Eduardo Araújo, Rosa Maria, Ivo Pessoa (Fama), Jerry Adriani, Alex Cohen, Pepeu e suas filhas - enfim, toquei com um montão de gente boa. Além disso, rolam eventos de confraternização de artistas, discussões sobre editoras, gravadoras, direitos autorais e tudo mais – é muito importante – e todo mundo deveria conhecer. O mentor e organizador da Festa da Música é o Fernando Vieira. Apesar de ter passado por uma perda, o falecimento do Alfredo Penedo no ano passado, seu braço direito, Fernando Vieira continua firme e forte com um evento de se tirar o chapéu. Já tô aqui me estendendo de novo – eu falo muito – desculpa parceiro – ATÉ MAIS GALERA !!!