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São momentos como esses que justificam toda a nossa dedicação ao Site. Entrevistar o Fábio Brasil é mais que uma honra – é um privilégio. Nos primeiros instantes fiquei abalado – fiquei nervoso para ser mais sincero, mas relaxei diante da simplicidade desse ícone da bateria brasileira. Aliás, uma das características mais marcantes entre todos os famosos que entrevistei foi justamente a simplicidade. Quando o cidadão é bom mesmo, é humilde.

Dizer que o Fábio Brasil tem estrela é mentira: ele é uma estrela – e de alta grandeza. Sua luz ilumina o caminho daqueles jovens que pretendem seguir nessa árdua profissão. Fábio Brasil revela-se como um verdadeiro artista, que faz da sua arte um meio de comunicação de massa – orientando, instruindo e inspirando o povo, sobretudo os jovens e adolescentes, através dos seus tambores.

Pra que ficar perdendo tempo falando das qualidades desse músico que todo mundo já tá careca de saber. Fábio Brasil é “atitude”. O Detonautas não é de blá-blá-blá. Suas notas musicais e acordes não são vazios. O Detonautas interage – faz. Dez bandas como o Detonautas transformariam o Brasil. Daí a nossa grande satisfação em poder dedicar algumas linhas do nosso Site a esse batera, que é fonte inspiradora daqueles espíritos do Bem que vieram ao mundo para construir e somar. Com vocês, Fábio Brasil !!!!

Site Batera: Fábio, o Detonautas é uma banda que faz sucesso do Norte ao Sul do Brasil e isso não aconteceu por acaso, ao contrário, é fruto de muito trabalho e dedicação. A sua banda chegou no topo das paradas e lá se mantem até hoje. Fala para gente como é esse outro lado da vida do músico de sucesso. Pegar estrada todo dia…avião…trem…ônibus. Muito sacrificante? E a familia, dá tempo de curtir um pouquinho?

Fábio Brasil: Primeiro eu agradeço a Deus todos os dias por tudo, sempre. Não tem preço poder viver da profissão que você ama. Batalhei muito por isso. Sonhei a vida toda em ser baterista e poder viver de música, tocar com a alma. Dedico-me muito praticamente todos os dias.Sinceramente adoro a estrada. Você acaba se acostumando. Essa continuidade também me proporciona um aprendizado sem igual. Sou mais observador do que falador, o que me faz refletir sobre tudo o que vivo .

Na estrada você cria resistência. Temos uma equipe sensacional já há um bom tempo com a gente. Temos um clima de  família entre nós e viajamos com todo o nosso equipamento de palco: instrumentos, amplis, microfones, in ears e uma mesa Yamaha O2R (pra nossa monitoração). Minha tarefa, além de tocar, é cuidar do som do palco. Passo som todos os dias, trabalhando pra conseguir o melhor som sempre - e temos conseguido um grande som pra todo mundo (público e banda),  em todos os  shows. Meu combustível está em amar de verdade minha profissão que é ser baterista em primeiro lugar. Quando chega a hora do show eu sei que é ali que eu quero estar.

Quando volto não saio muito. Tenho um estúdio em casa, o “Mobília”, onde faço minhas produções e é lá que eu fico a maior parte do tempo quando não estou na estrada. Eu e minha mulher estamos sempre juntos e a gente se diverte muito do nosso jeito. Tenho uma família que sempre soube lhe dar com um filho que fazia muito barulho desde muito novo (risos...muitos risos...). Sempre me deu carinho mas também cobrou que eu não ficasse por aí vendo o mundo passar e estão muito felizes hoje .

Site Batera: Independentemente da banda, você é um baterista que conquistou o respeito e a admiração de todos nós que praticamos a arte dos tambores. Ainda que o Detonautas não alcançasse seu lugar ao Sol, você certamente teria seu lugar reservado entre os grandes ícones da bateria nacional. Um baterista não se constrói da noite para o dia. Você estudou? Fala um pouquinho da sua jornada de estudos desde o início da sua carreira. Leitura é essencial? Um batera que não lê fica limitado ou o simples dom dado por Deus é suficiente para o sucesso profissional?

Fábio Brasil: O reconhecimento como profissional é um dos maiores sonhos da minha vida. Tenho uma relação de respeito muito grande com o meu instrumento - que nunca acabará. Minha paixão e identificação pela bateria vêm desde muito novo. Quando era moleque vivia batucando pelos cantos as músicas que eu gostava. Só pensava no dia que teria uma chance de sentar numa bateria e tocar livremente. Ate hoje pra mim a melhor maneira de estudar é tocando junto com os meus discos preferidos.

As minhas primeiras aulas aconteceram quando eu tinha uns 12 anos de idade com um professor particular. Confesso que nessa época preferia me reunir com os amigos que também estavam aprendendo a tocar do que parar para estudar sozinho. Minha relação sempre foi de gostar alucinadamente de música e querer tocar por prazer sempre.

Depois, mais tarde, com uns 18 anos, já sonhando em viver de música, estudei na Musiarte aqui no Rio de Janeiro - que foi onde aprendi a ler e entender as divisões. Foi um época que estudei bastante, aprendi a respirar (mesmo quando toco forte), conquistei clareza e desenvoltura no meu jeito de tocar. Passei a tocar com mais domínio nos movimentos. Mesmo que você tenha um dom dado por Deus, estudar fará com que você se sinta muito mais preparado e seguro pra tocar o tipo de trabalho que desejar, mas não se esqueça do seu feeling, isso é insubstituível.

Site Batera: Você usa click nos shows? Sua batera é trigada? Você usa pedal duplo? Descreve pra gente o seu set.

Fábio Brasil: Uso click em algumas musicas ao vivo sim. Usamos várias bases eletrônicas no nosso show. Nunca usei trigger na minha bateria. De eletrônico uso pads com efeitos. Até então também nunca tinha tocado com um pedal duplo até receber um a pouco tempo da Yamaha, tenho me divertido muito. Estou aprendendo a tocar direito com eles. Tá começando a rolar bem agora. Tô ganhando firmeza e controle na perna esquerda. Tenho me divertido e ficado mais abusado com eles ultimamente. É algo novo pra mim e o prazer vem daí. Gosto de usá-los sutilmente.

Minha Batera hoje é uma doce e maravilhosa Yamaha Maple Custom Absolute Noveau, na configuração 22”, 12”, 14”, 16” mais curto e 16” mais longo, cor Black Sparkle. Minhas caixas variam conforme o tipo de música, aproveito tudo o que eu posso com elas. Na estrada uso uma caixa Yamaha Mike Bordin pros timbres mais graves e pesados (geralmente nas músicas mais arrastadas). Uso bastante uma Pearl Ian Paice Signature que eu adoro. Muito versátil. Ela tem tudo: ataque, corpo, sujeira (risos...), tem um som mais “vintage”, diríamos assim . Ou ainda uma Tama Stweart Copeland cheia de ataque e brilho. Uso também uma caixa Yamaha de 12x4 no  meu lado esquerdo. Uso pratos Orion há muito tempo. Baquetas Liverpool 2R, estamos desenvolvendo um modelo com a minha assinatura. Microfones ÁudioTecnica. Ao vivo também uso uma D4 espetada em 2 pads pra efeitos e um Cowbell LP. As peles eu tenho comprado todas ultimamente, uma marca pra caixa, outra pros tons. Tem muita pele boa hoje, tô variando.

Site Batera: Você é endorsee de grandes marcas. Isso, por si só, já revela um baterista de sucesso. Como é o seu relacionamento com essas marcas, ou seja, com a indústria? Como um baterista consegue chegar a ser endorsee? Você procurou a indústria ou ela te procurou? Quais são as marcas que você representa?

Fábio Brasil: O Detonautas ainda tinha apenas uma Demo quando arrisquei mandar a primeira vez material pro Daniel Lima que estava na RMV e pro Newton da Orion Cymbals. Eles sempre foram honestos comigo, sempre que podiam me davam um apoio. Sabiam que eu estava correndo atrás, mas eu sabia também que ainda não era endorsee de marca nenhuma. Isso me batia bem porque fazia com que eu me dedicasse ainda mais pra ter condições de ter um trabalho legal, com estrutura, me fez dar valor a cada conquista. Depois deixei que as coisas acontececem naturalmente. Nunca usei equipamento que não gosto, que não sinta firmeza. Adoro os pratos Rage Bass da Orion. A concepção deles. Adoro o som da RMV Concept Laranja que eu usava ao vivo na turnê Roque Marciano (a batera que está no nosso DVD). Pra galera que tem dúvidas sobre a batera é só ver e ouvir. Tá lá o som dela original. Não mexemos em quase nada na mixagem. Sempre tive uma relação de muito respeito e carinho com todas as marcas que me patrocinaram e patrocinam até hoje. Nesse país é preciso dar muito valor a quem investe. Tudo o que uso é porque  realmente gosto e acredito. Tinha vontade de usar Yamaha um dia. Tenho uma Recording Custom que comprei na época do dólar 1 pra 1 com o Real. Quando acabou o meu contrato com a RMV não quis assinar de novo. Queria botar essa batera no palco pra sentir ela e não larguei mais.

Um dia tomei coragem e liguei pra lá pra bater um papo com eles. Sei lá, nunca se sabe, dizer que tinha uma, mas foi uma grata surpesa - nesse dia eles falaram “estávamos querendo falar com você”. Fiquei emocionado pra caramba. Sem palavras. Eles sabem hoje como me sinto e o quanto dou valor ao meu instrumento e acho que era isso exatamente o que eles queriam de mim (risos). Estou realizado. Hoje sou patrocinado pela Yamaha, Orion Cymbals, Michael, Baquetas Liverpool e Microfones ÁudioTécnica.

Site Batera: O Detonautas já está mais do que consagrado no Brasil. E fora, vocês pensam em investir numa carreira internacional ou o foco será sempre o Brasil? Quais os planos do Detonautas para o futuro? Novos projetos?

Fábio Brasil:
Temos planos de ir a Portugal. Nossa música toca lá e nunca fomos. A gente está se preparando também pra fazer shows na Europa. Já fizemos shows nos  EUA e no JAPÃO e foram demais. Hoje estamos trabalhando nas prés do nosso novo disco que vai se chamar O Retorno De Saturno e  em breve estaremos em estúdio gravando.

Enquanto isso a tour  PsicodeliAmorSexo & Distorção continua indo muito bem  pelo Brasil. Hoje cada um da banda desenvolve seus projetos pessoais: o Tico com o Voluntários da Pátria tem viajado pelo Brasil todo levando seu grupo de debates e reflexões para as escolas e universidades de todo o país, é um guerreiro; o Tchello com o seu 11:11 Project que reúne música e artes em geral, Eu e Renato produzindo e gravando e o DJ Cleston com o seu projeto Budha of Compassion e o Tontera

Site Batera: Sua banda não se limita a fazer música boa. Vocês desempenham uma função social ímpar. Sempre mandando recado pra sociedade como “corrupção traz violência” e coisas do gênero, o Detonautas se consagrou como uma banda politizada. De onde vem essa consciência social?

Fábio Brasil:
A consciência social sempre existiu dentro de nós da banda. Muito antes de acontecer o que aconteceu com o Netto os protestos já eram feitos nos nossos shows. Sempre falamos abertamente pro público o quanto precisamos cuidar do país, dos nossos direitos, mas também dos nossos deveres .


A solução que se quer não está nos outros e sim em nós mesmos. É preciso olhar pra dentro de si .
Mais uma coisa: é chato, triste, mas é preciso lembrar todo dia que nada é de graça aqui. O que se paga no Brasil é 40% de imposto e não funciona nada. Não é favor, é obrigação. Temos que lembrar disso todo dia. Você paga e não recebe nada de volta. O que se faz nesse país é revoltante.
Isso não tem como deixar de lado. É uma pena que as pessoas não estejam nem aí, é pior pro país e ninguém quer perceber.

Site Batera: Fazendo uma perspectiva, como você vê o rock nacional no futuro? O mercado pro discípulo do rock é promissor? Que mensagem você manda para aquele que está começando na carreira?

Fábio Brasil: O Rock nunca vai acabar, seja a música ou a energia que ela lhe causa. Não adianta, podem falar o que quiser, sempre terão doidos tocando, aprendendo, ouvindo, pulando, se matando nos shows. As rádios podem correr quantas vezes quiserem desse segmento, o Rock nunca vai acabar!
Hoje está uma maravilha pra quem tem banda ou quer ter. Você tem toda a internet a sua disposição. Tem blogs, flogs, Mp3, infinitas Comunidades, sites de aula, de músicas cifradas, catálogos, tudo rapidinho. Antigamente nem revista praticamente existia e isso vai se alastrar cada vez mais. Imagine que agora você tem o seu espaço de divulgação, praticamente de graça e sem depender de quase ninguém. Isso realmente é muito bom. Vale ouro pra quem sabe usar. A internet pro mundo da música, na minha opinião, foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos tempos .

Site Batera: Fábio, fica aqui registrado o nosso agradecimento a você e à banda, não só como músico, mas como brasileiro. Vocês deram uma nova cara pro nosso rock. Vocês são fonte inspiradora seja para nós músicos, seja para os poetas, para os políticos, para os estudantes, para os jovens ou para os idosos. Assim deve ser o artista: poliglota. Deve falar a lingua do pobre e do rico, do índio e do alemão. Obrigado amigo, por você ser tão dedicado.

Fábio Brasil: Como brasileiro eu sonho em ver as coisas funcionando. Depende de cada um de nós  fazer e não esperar que aconteça Não adianta reclamar se você não faz nada. Essa reclamação não vale de nada e isso só vai te consumir! Nesse país nada cai do céu, mesmo!

Não sou de família rica. Fui criado no subúrbio e meu pai era vendedor. Parecia distante mas acreditei que podia viver do que eu gosto de fazer e comprei o barulho. Não saí do meu caminho. Como exemplo digo: vale a pena correr atrás , sempre! Construir uma vida, cuidar do que é seu, achar o seu caminho e não passar ninguém pra trás. No Brasil tudo é mais difícil, mas mesmo assim existem oportunidades pra quem corre atrás e sonha. Não saia do seu caminho se você acredita nele.

Muito obrigado

Um forte abraço a todos!

Fábio Brasil