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Eu não toco nada, mas posso dizer que tenho duas coisas em comum com o Pedro Mello: cursei Direito, assim como ele e a minha primeira bateria também foi um presente da minha avó - que pena que é só isso.

Assim como ocorreu com o Téo Lima, deparei com o Pedro Mello no Aeroporto Santos Dumont (Rio). Eu não poderia perder aquela oportunidade - abordei. O cara tava cheio de cases de pratos e tambores, mas eu tinha que ser chato - ele iria para São Paulo e eu estava a caminho de Brasília - era aquela hora ou nunca. Ele topou. Fui chato, mas valeu a pena.

Para vocês, exclusivamente para a Galera do Site: Pedro Mello - de batera para batera.

Site Batera: Seu trabalho é tão rico e versátil que qualquer entrevistador não saberia por onde começar, mas nós sabemos: vamos direto para aquela pergunta que todos gostariam de fazer. Você tocou com o The Wailers, a banda do Bob Marley. Não só tocou como gravou duas faixas de um CD ao vivo com a melhor banda de reggae da história. O que isso representa pra você? Como foi essa experiência?

Pedro Mello: Antes de qualquer coisa quero agradecer ao Maggiolo e a toda equipe do Site Batera pelo espaço que estão me dando permitindo que eu fale um pouco de mim e da minha carreira como músico. Quero também parabenizá-los pela iniciativa pioneira de criar uma página que proporciona a milhares de pessoas, músicos ou não, de todas as idades, o acesso a materiais didáticos, comentários, entrevistas, anúncios, dicas, truques, em fim, a todo esse interminável conteúdo rico em informações principalmente baterísticas. Gravar com o The Wailers foi um marco na minha vida. Foi uma experiência mágica que só a arte da música pode explicar. Foi em 1997. Eu estava caminhando numa rua do Leme com uma garota, hoje minha esposa, quando ela avistou um casal vindo em nossa direção cuja mulher era uma amiga, Rosana, que ela conheceu na Austrália. Nos apresentamos e, enquanto ela conversava com a amiga eu conversava com ninguém menos que Junior Marvin. Fiquei chapado ao reconhecê-lo e só caiu a ficha quando me disse que estava com o The Wailers para fazer um show no Lokau, um espaço que havia na Praia da Reserva, no Recreio. Depois de conversarmos um pouco e dele saber um pouco da minha experiência musical Junior me convidou para fazermos um som, sem compromisso, num estúdio de um amigo dele, no Leblon. Pediu que eu lavasse algumas coisas de percussão. Chegando lá Junior me perguntou se eu tocava berimbau e eu disse que sim então ele me explicou que estava com um projeto de, usando as bases pré-gravadas de algumas canções do Wailers, recrutar músicos brasileiros para complementarem com seus instrumentos, dando um toque especial nas gravações. Foi o que fiz com enorme prazer: gravei um berimbau em Say something e um bongô em Get Up, Stnd Up. Quando terminei minha sessão fiz um som com toda a banda. Não toquei bateria pois depois que ouvi e vi tocando um mestre do reggae roots na minha frente preferi não me aventurar (risos). O projeto ficou registrado, mas, infelizmente, não se transformou num álbum de série.

Site Batera: O líder do The Wailers - o guitarrista e vocalista Junior Marvin - é seu amigo pessoal?

Pedro Mello: Depois desse nosso encontro e das respectivas mulheres se reencontrarem, pois há alguns anos não se viam, enquanto eles ficaram no Rio fomos seus cicerones. Daí surgiu uma boa amizade; continuamos a nos falar por telefone e, toda vez que os Wailers vinham ao Rio ele me ligava e fazíamos a maior farra. Até que, num dia, quando vi um lambe-lambe anunciando um show do The Wailers na cidade estranhei o Junior não ter me ligado. Liguei para ele e soube que, dois dos antigos integrantes da banda, contemporâneos do Marley, como é o próprio Junior, haviam se reintegrado a mesma e se desentenderam com Marvin e ele, infelizmente, saiu do The Wailers. Tínhamos uma idéia de montarmos um trabalho, uma banda aqui no Brasil, pois ele dizia que tinha muita vontade de se mudar para cá. Imagina eu numa banda junto com Junior Marvin, que loucura. Mas o cara não para, tem filhos espalhados por todos os continentes (rs) e continuamos mesmo nos falando por telefone já que ele não tem vindo mais ao Brasil.

Site Batera: Já que estamos falando da sua humilde bagagem, outra credencial que você estampa é capaz de deixar qualquer baterista brasileiro de olho gordo: você tocou no Vitória Régia - a banda que acompanhava "O Síndico" Tim Maia. Você nasceu virado para a Lua? A que você atribui todo esse sucesso profissional?

Pedro Mello: Cara, sucesso é uma palavra que eu não costumo usar. Quando você se prepara para alguma coisa, faz o que gosta, leva aquilo a sério e, principalmente, aprende a dosar humildade com profissionalismo, as coisas acontecem naturalmente. Ao longo do meu caminho venho conhecendo muitas pessoas bacanas, trabalhando com algumas delas e esse é outro ponto importante: bons contatos. Vivendo honestamente, sendo você mesmo e levando a sério o que faz você acaba atraindo pessoas legais e isso faz com que todos façam parte de uma "grande banda". Um indica o outro para os trabalhos, um ajuda ao outro.

Site Batera: Você é endorsee da Vic Firth (Internacional) - isso é um reconhecimento que poucos conseguem na carreira. Você é uma referência e um estímulo para aqueles que estão abraçando a arte dos tambores como profissão. Que conselhos você dá para aqueles que estão iniciando nessa profissão? É bom ser endorsee?

Pedro Mello: Pô, ser endorsee da Vic Firth foi das melhores coisas que aconteceram na minha vida. As baquetas nacionais ainda não são feitas com a mesma tecnologia das famosas estrangeiras e que têm um preço absurdo. Algumas chegam a custar R$50,00 o par!!! A parceria me dá um sossego de não ter que gastar com baquetas por um bom tempo. Mas o principal é mesmo o reconhecimento como artista, como instrumentista brasileiro.

Site Batera: Você participa ativamente, há vários anos, de gravações de cenas e trilhas sonoras de novelas, especiais e afins, para o Sistema Globo de Televisão, tendo como trabalhos mais recentes as gravações das percussões do programa Sítio do Pica Pau Amarelo e das baterias e percussões das músicas incidentais da nova novela das sete, Da Cor do Pecado. Além disso, você ainda cumpre uma agenda anual com mais de 160 shows. Como você dá conta disso tudo? Você ainda estuda? Como é a sua jornada de estudos?

Pedro Mello: Dar conta disso tudo realmente não é tarefa fácil. Você tem que ter muita disciplina e uma agenda muito bem organizada. O estudo, a prática são primordiais. Ninguém está pronto o suficiente para achar que não precisa mais estudar. Pelo contrário, você só mantém sua técnica "em cima" com uma rotina de estudos com disciplina. Confesso que gostaria de poder estudar bem mais do que consigo. Tenho uma V-Drums montada na sala do meu Ap. e é nela que estudo a maior parte do tempo. Costumo estudar de duas a três horas por dia, mas isso, infelizmente, não é religioso, pois ainda dou aulas particulares e tenho uma família, com mulher e filhas para ajudar a criar.

Site Batera: Dizem pelos bastidores que você está em fase de pré-produção de um vídeo-aula voltada para o cenário internacional - nenhum espaço poderia ser melhor do que o Site Batera para a grande "revelação". Fale um pouquinho (melhor, um pocão) sobre esse projeto de envergadura internacional.

Pedro Mello: Pois é, tudo ainda está muito no início pela agenda atribulada das pessoas. Mas acho que, no máximo em um ano devo ter a matriz pronta. Muitos músicos estrangeiros vêm "beber" na riquíssima fonte da música brasileira, que com sua diversidade rítmica quase que infinita, vem deslumbrando os gringos há muitas décadas. Por isso resolvi apontar minhas baquetas praquele mercado, o que, de forma alguma, exclui o nosso Brasil, país que me deu 99% da bagagem musical que tenho.

Site Batera: Por fim, fale pra gente sobre os seus projetos - aulas - shows - gravações etc.

Pedro Mello: Bom, as gravações na Globo são uma constante. Tenho contatos, que venho fazendo nos mais de dez anos que participo de gravações na emissora, com seis produtores musicais, o que faz com que sempre tenha um novo produto que eu participe, seja especiais, mini-séries, novelas, etc. Hoje tenho poucos alunos, a maioria da EARJ - Escola Americana do Rio de Janeiro - justamente pelo fato de ter meu tempo muito apertado mas pretendo, no ano que vem, ampliar esse grupo pois gosto muito de dar aula. Poder passar para alguém algo do pouco que sabemos e ver essa pessoa crescer no que faz é muito gratificante; um prazer sem igual. O trabalho no qual estou investindo a maior parte do meu tempo é com a banda Pedras Pra Moer, cujo vocalista é o Daniel de Oliveira, protagonista de "Cazuza - O tempo não para". Temos uma agenda cheia já para o próximo ano, vamos gravar nosso primeiro CD, ainda em negociação com uma grande gravadora. Temos divulgado o trabalho em programas como o Altas Horas do Serginho Groisman e imprensa em geral. Nosso próximo show será no domingo que vem, dia 5 de setembro, no Teatro Odisséia, na Lapa. Minha vídeo-aula também está programada para sair em 2005, se tudo seguir bem como está acontecendo agora. É isso. Desejo muita sorte a todos do site e a todos àqueles que respiram música. Aos que estão começando sugiro que, mesmo que não pretendam seguir uma carreira profissional como músicos, levem a sério tudo que fazem. Se for por diversão, dediquem-se ao máximo para se divertirem muito. Se for por profissão, sejam disciplinados, criem uma rotina de estudos, insistam sempre, ultrapassem seus limites com consciência e, acima de tudo, sejam humildes.Um forte abraço a todos.